Análise
A China "é uma boa amiga"
Por Teresa de Sousa
Como olha a China para Portugal? Talvez fosse melhor começar por perguntar como olha a China para a Europa. Do ponto de vista político, as relações entre os dois colossos económicos não atravessaram nos últimos tempos o seu melhor momento. Há dois anos, quando os líderes europeus que contam aos olhos da China receberam o Dalai Lama, Pequim reagiu nos seus padrões de fúria diplomática habituais. As relações esfriaram. Hoje, as autoridade chineses procuram "estabilizá-las". Hu Jintao chega a Lisboa depois de três dias de visita cordial ao seu homólogo Nicolas Sarkozy. Em 2008 cancelou uma cimeira com a União Europeia durante a presidência francesa.
Há ainda duas "pedras" no relacionamento entre Pequim e Bruxelas. A primeira é o embargo da venda de armas, decretado pelos EUA e pela Europa depois de Tiananmen. Quando, em 2005, por iniciativa do então Presidente Chirac, a Europa colocou a questão sobre a mesa, a pressão americana foi suficiente para a fazer recuar. Hoje, essa pressão é menor mas há divisões dentro da União e um consenso sobre a necessidade de coordenar a decisão com Washington.
A segunda questão é europeia. A UE ainda não concedeu à China o estatuto de economia de mercado, que lhe abriria ainda mais os mercados europeus. Tem ainda quatro anos para utilizar esta arma. Em 2014, as regras da OMC, à qual a China aderiu em 2001, garantem-lhe automaticamente esse estatuto.
Em pano de fundo, há um clima difuso de desconfiança mútua que Jonathan Holslag, investigador do Institute of Contemporary China Studies de Bruxelas, resume assim ao PÚBLICO: "A Europa tem a percepção de que a China está a ficar cada vez mais arrogante. Os chineses não acreditam que sejamos um protagonista de uma ordem mundial em mudança." A crise reforçou ambas as percepções.
Mas a China não deixa de ter interesse "na estabilidade monetária" da Europa", porque a Europa é o principal mercado para as suas exportações, diz ainda Holslag. "Há uma real preocupação em Pequim com os problemas das economias americana e europeia e a forma como isso pode afectar o desenvolvimento económico do pais". Outros analistas dizem que não quer estar sozinha diante da omnipresença do dólar.
2. E isso leva-nos até à presente crise a à forma como Pequim está a desempenhar o papel de "melhor amigo" das economias mais vulneráveis da Europa. Holslag de novo: "Pequim desencadeou uma espécie de ofensiva de charme em relação a alguns Estados individuais. Os chineses pensam que Bruxelas está a ser demasiado dura nas questões do comércio e querem reverter esta tendência através dos Estados-membros."
"A China utiliza os seus investimentos na Grécia, na Hungria ou na República Checa como ponto de partida para construir a sua credibilidade junto dos actores mais poderosos da União", diz François Godement, de Sciences Po, ao Monde. Poder-se-ia acrescentar à lista Portugal ou a Irlanda. Holslag acrescenta que "a crise é também vista em Pequim como uma oportunidade para que as empresas chinesas penetrem no mercado europeu". Pequim não se limitou a comprar dívida soberana à Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda. Ofereceu investimentos e negócios. Quando Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, chegou em Outubro a Atenas, foi recebido com passadeira vermelha. Lembrou depois em Bruxelas que a China tinha "agido como um amigo" quando outros investidores fugiam. Tem reservas gigantescas de divisas e estes países precisam desesperadamente de investimento estrangeiro. Isto não significa, dizem fontes diplomáticas portuguesas, que o interesse chinês se concentre apenas neste países. "Quer colocar um pé na Europa. Comprou a Volvo na Suécia. Está no Leste." O que não deve ser visto com desconfiança: "A China está à procura de oportunidades. A crise é uma oportunidade."
3. Pode Portugal aproveitar essa oportunidade? É um dos países da UE com uma pareceria estratégica com a China. Os outros são a Alemanha, França, Espanha e Itália. Os laços históricos explicam esta relevância nas contas de Pequim. Lisboa tem-se mostrado uma amiga "fiel". O Presidente que agora recebe Hu Jintao não recebeu o Dalai Lama nem a diplomacia portuguesa gosta de fazer muito barulho com os direitos humanos. É pelo levantamento do embargo de armas e defende uma conclusão rápida das negociações para o estatuto de economia de mercado. A China é recebida hoje como "uma grande amiga".
Saturday, November 6, 2010
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